A conversa foi ontem. Foi assim sem mais nem menos, às tantas da manhã, acerca de nenhum assunto que se esperasse chegar a algum lado. Até que dei por mim a dizer o que fazia da minha vida e que descobri que tenho jeito para ensinar. A resposta que veio do outro lado foi: «Tu sempre tiveste jeito para ensinar». Resposta a qual despertou em mim um sorriso, já com as pálpebras pesadas do tardar da hora. E respondi que só descobri isso agora. Que antes não sabia se realmente tinha jeito ou não, até mesmo porque me considerava alguém com muito pouca paciência (e que, de verdade, sou muito pouco virtuosa nesse campo).
-Eu não me esqueci que a P. sabia menos que eu e safou-se com muito mérito teu.
A hora era adiantada. As pálpebras estavam pesadas. O corpo mole. E os olhos brilharam. E depois não era só brilho. Estavam já cheio daquela lágrima marota que cai pelo cantinho. O reconhecimento deixou-me comovida. O reconhecimento de algo que até eu já me tinha esquecido que tinha o porquê de ser reconhecida.
Orgulhaste-me. Orgulhaste-me e eu até o teu cato matei. A nossa fotografia continua cá. O cato foi-se. Eu não soube cuidar. Eu não soube deixar crescer mesmo sendo uma tarefa simples. Tu não! Tu foste uma mulher exímia! Tu cuidaste das horas que eu te dediquei e fizeste-as crescer. Fizeste-as darem fruto. Tu trabalhaste. Tu conseguiste. És alguém que me faz ver. Que soube aplicar. Hoje eu sou mestre mas naquela altura era aprendiz. Naquela altura estava ao mesmo nível que tu. E tu foste muito superior. Tu cuidaste, fizeste florescer e multiplicaste o que te dei. Se a situação se revertesse e se fosse eu quem estivesse no teu lugar nunca tinha chegado aonde chegaste. Mas tu não! Tu sabes cuidar. Eu desisto, eu esqueço com facilidade. Tu aplicas-te. Ontem eu lembrei-me que as horas que te dediquei foram das melhores coisas que fiz na vida. Obrigada por teres chegado onde chegaste. Obrigada por me dares um motivo de reconhecimento. Obrigada por seres essa mulher fantástica que aprendeu. Que construiu algo muito grande com muito pouco. Que aproveitou cada pedrinha que aparecia e construiu um palácio. Eu orgulho-me das tuas conquistas. Mesmo sabendo que são tuas. E queria que soubesses. Porque o J. ontem lembrou-me de quão grande és.
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